Escavaçãopor Mário Sá-Carneiro

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh’alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente á força de sonhar…

Mas a vitória fulva esvai-se logo…
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo…
— Onde existo que não existo em mim?

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d’amor sem bôcas esmagadas—
Tudo outro espasmo que principio ou fim…

Paris, 3 de maio de 1913

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi um poeta nascido em Lisboa, contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa. Participante das correntes de vanguarda, como o interseccionismo e o paulismo.